Marie Jane's POV
Hoje foi uma dia realmente estressante. Acordei atrasada, comecei o turno das 7 horas um pouco atrasada e Danny não me deixou em paz, uma criancinha passou correndo por entre minhas pernas fazendo com que toda a comida e os objetos que estavam em minha bandeja (que não eram poucos) caíssem sobre mim e eu virasse motivo de piada do estabelecimento.Sai correndo e chorando para o fundo da Danny's Buger, em direção ao "vestiário" dos funcionários, que eram eu e mais duas garotas, ou seja, quem o usava aquela salinha com cheiro de limo era eu, porque as outra duas quase nem usavam roupas. Eu estava extremante cansada, pois mal havia pregado o olho a noite passada.
Na noite anterior, tinha ido mais para o centro de Londres atrás da casa de dançarinas (se é que posso decentemente chamá-las assim). Cheguei lá e fiz meu teste, tinha que dançar e ainda me deram uns pedaços de pano para eu me apresentar, ou seja, me senti desconfortável e ridícula Tentei não parecer uma retarda dançando e acho que fui convincente, porque ganhei mais um emprego.
Não sei se é bom, pois além de gastar meu tempo pela manhã em um lugar onde não me tratam bem, a noite vou me apresentar em uma casa noturna, acho que vou surtar. Queria ser mais decente, mas minha condição financeira não está permitindo isso, por exemplo, hoje de manhã, fui tentar algo que pudesse ser comestível em minha geladeira e me lembrei que esqueci de ir ao mercado, pela quarta vez no mês e quando foi consultar minha poupança, apenas 5 euros, e com certeza com esses cincos euros e mais algumas poucas gorjetas que ganharia pela manhã, me levariam ao me novo trabalho. Com a volta não me preocupava, pois com agora sou, digamos, "vendida", com certeza ninguém irá me jogar fora e poderei ganhar até uma carona.
Agora, voltando ao presente, me encontro chorando no chão do banheiro da lanchonete, que precisa de uma boa faxina, com uma gilete na mão. Sei que não é o certo e essa também não será a primeira vez que irei me cortar, mas alivia minha dor, faz tudo relaxar por um pequeno instante. Passo a lâmina, uma, duas, três vezes no pulso direito e já me sinto mais leve. Repito a mesma ação no pulso esquerdo, quando de repente percebo que tem alguém batendo na porta:
- Marie abre essa porta! Eu estou aqui há mais de 5 minutos esperando você abrir essa merda! Eu quero te ajudar! Eu não vou te julgar!
Era Emy. E senti que as suas palavras eram verdadeiras. Emy era a única pessoa na vida que eu confiei e nunca me decepcionou ou me deixou na mão. Faço um esforço pra levantar e percebo que meu pulso não parou de sangrar e que o chão está todo melado com o meu sangue. Começo a ficar nervosa e pensar: "É agora que eu me ferro!". Abro a porta e vejo Emy me olhando, incrédula:
- O que houve por aqui?
Não respondo, só mostro meus pulsos e ela me devolve um olhar de preocupação e fala:
- De novo Jane? Quantas vezes isso vai se repetir?
A única coisa que consegui foi sussurrar um leve "Desculpe-me" e depois deixar meu rosto ser lavado pelas minhas lágrimas. Emy, percebendo o quanto fragilizada eu estava, falou:
-Venha aqui, vamos cuidar de seus machucados.
Emy era como se fosse minha irmã mais velha, ela era minha única família. Emy queria saber o que aconteceu e eu não parava de chorar. Pronto! Agora além de minha vida já não ser fácil, sou uma menininha chorona!
- Vamos Marie, sei que é difícil e não sei o que está passando, mas tente ser mais forte e me conte o que aconteceu ontem.
- Você sabe que minha condição financeira não estar uma da melhores, certo?
- Eu posso tentar pedir uma aumen....
- NÃO! - Respondi rápida - Já disse que não quero que peça aumento algum a seu marido por mim, eu tenho que fazer por merecer e caso você peça o que ele pode fazer com você? Eu tenho medo e também nem quero que aquele ogro pense em por as mãos dele em você, se não ele é um homem morto! Você é meu porto seguro e eu não posso deixar nada acontecer.
Emy apenas olhou para os pés, magoada, mas era a verdade e não quero que uma pessoa como Emy se comprometesse por minha causa. Então continuei:
- Ontem a noite, quando terminei meu expediente, corri até uma casa de dançarinas e garotas de programas chamada On Fire. Soube que precisava de novas garotas na casa, graças à algumas noticias que ouvi aqui, e me alistei. Não estou podendo escolher muito onde trabalhar e tenho que me arranjar com o que aparece. Por isso agora eu sou garçonete e dançarina.
- O QUE?? - Emy disse meu alterada e fez uma cara de quem não estava entendendo - Por que você fez isso?
- Por que?! - Falei gritando, mas em seguida me acalmei mais um pouco, vendo que não poderia despejar tudo em cima da pobre Emy, que já tinha tantos problemas quanto eu - Porque meus pais nunca quiseram saber de mim, de me fazer sorrir, então um dia decidi que sairia de casa e mudaria minha vida. De fato, minha vida mudou e muito, ela virou de cabeça pra baixo. Quase não tenho dinheiro e tem dias que eu não me alimento, como hoje. Sabe por que? Porque a única coisa que encontrei naquele apartamento foram 5 euros e uma geladeira vazia! A única coisa boa foi ter te conhecido Emy, você é a única no mundo inteiro que se preocupa comigo, que toma conta de mim, que me faz sorrir de verdade, e acredite se quiser,você ajuda a amenizar tudo.
Emy estava com os olhos molhados e eu a abracei, fazendo que ela soltasse algumas palavras:
-Eu só queria fazer tudo passar!
-Mas acredite, você faz muita coisa passar, por exemplo, você está aqui, agora, comigo, cuidando de mim.
-Obrigada, você também me faz esquecer um pouco a minha realidade casada. Agora vamos limpar os seus pulsos e esse banheiro, depois eu arranjo alguma coisa pra você comer. Vamos logo, antes que aquele ser gorduroso que chamo de marido desconfie de alguma coisa.
-Obrigada Emy. Você vai ver, eu vou mudar a sua realidade, é uma promessa. E única coisa que eu consigo fazer pra você, é te dar trabalho!
-Acredite, você faz mais que isso! Agora vamos fazer um curativo nesses pulsos, viu mocinha??
Nós duas rimos
(.....)
Quando voltei ao serviço, Danny me olhou estranho e me perguntou o que era aquilo enrolado nos meus pulsos, simplesmente menti, é um dom nato meu, dizendo que quando a garotinha se esbarrou em mim, alguns objetos que caíram me machucaram e acho que foi convincente pois ele nem ligou muito, bufou e voltou ao seu escritório.
Emy me serviu, escondido claro, de um farto café da manhã, se é que posso chamar assim, já que passavam das duas da tarde e era a primeira coisa que ingerirá aquela manhã.
A noite, quando sai da Danny's Buger, Emy me deu um lanche, alguns trocados e disse:
- Juízo, viu mocinha? Sei que não está comendo direito, então trate de acabar com esse sanduíche rapidinho e tome esse dinheiro para que consiga pagar um ônibus, um táxi, um metrô, qualquer coisa, mas não quero que fique andando na ruas de Londres sozinha, é perigoso
- Sim mamãe já entendi! - Disse e depois ri.
- E amanhã me conte tudo!
Isso só aconteceria se eu sobrevivesse a essa noite e ela estava me aparentando que seria longa.Resolvi pegar um metrô. Cheguei rapidinho a On Fire. Na porta respirei fundo e adentrei o salão.
Ótimo, seria hoje que eu perderia o minimo de dignidade que restava em mim naquele lugar.
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